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PCB e o trabalho clandestino nas fábricas (1 e 2)

  • Foto do escritor: Edmilson  Costa
    Edmilson Costa
  • 6 de jun. de 2025
  • 45 min de leitura

Edmilson Costa*

Esse trabalho de pesquisa está dividido em duas partes: na primeira, abordamos o esforço teórico dos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com o objetivo de elaborar uma linha política para a construção do Partido nas grandes empresas, (tarefa histórica perseguida pelo PCB ao longo de décadas), justamente no momento em que se desenvolvia a indústria automobilística e metalúrgica no ABC paulista; na segunda parte, analisaremos em detalhes como o Partido conseguiu, pacientemente, realizar um trabalho de base cujo resultado foi a estruturação de dezenas de células clandestinas nas principais empresas da região, trabalho que começou a ser destruído pela repressão a partir de 1972 com a prisão dos principais dirigentes da Comissão de Fábrica da Volks, a maior da região, e se completou com a grande repressão contra o PCB nos anos 1974-1976.

Durante a pesquisa consultamos todos os números do jornal clandestino do PCB, Voz Operária, que circulou mensalmente em plena ditadura entre os anos de 1965 até janeiro de 1976, e também recolhemos o depoimento do principal dirigente e organizador dos Comitês de Fábricas no principal polo industrial do País naquele período, camarada ferramenteiro Lucio Bellentani.  Em janeiro de 1976, com a ajuda de um traidor, a polícia política invadiu o complexo gráfico do Partido no Rio de Janeiro, prendeu os trabalhadores que lá estavam, bem como os dirigentes partidários ligados à Voz Operária, muitos deles os corpos estão desaparecidos até hoje. Com a queda, o jornal só voltou a ser publicado novamente um ano depois no exterior.[1]

A avaliarmos os números do jornal Voz Operária poderemos ver claramente que, mesmo nos momentos mais dramáticos da ditadura, o PCB sempre esteve na resistência, tanto lutando para organizar pacientemente os trabalhadores no interior das fábricas, quanto nos sindicatos, bem como procurando, através do jornal, divulgar as lutas dos trabalhadores contra a ditadura, denunciar as torturas e buscar influir na grande política e na resistência ao regime.  Os comunistas pagaram um elevado preço pela ousadia de enfrentar a ditadura, mas quem pesquisar esse período poderá constatar o arriscado trabalho de militantes e dirigentes que deram o melhor de suas energias, inclusive a própria vida, para a organização do proletariado, pelas liberdades democráticas e emancipação dos trabalhadores na perspectiva da sociedade socialista.

As próximas gerações, quando tomarem conhecimento do que foi realizado clandestinamente naquele período, deverão se mirar no exemplo desses abnegados militantes da revolução e honrar esse legado histórico do PCB. Se esse trabalho contribuir para tornar público esse período que a história não contou, ficarei grato.

Autocrítica e apontamentos para a organização nas empresas

O golpe militar significou a maior derrota do movimento operário no Brasil e de sua principal vanguarda, o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Um revés tão profundo que somente em 1965 o Comitê Central teve condições de se reunir, avaliar autocriticamente o significdo do golpe e iniciar um processo de resistência ao novo regime. Na Declaração de Maio de 1965 o Partido avaliou as debilidades que o levaram à derrota, realizou uma autocrítica  por ter se colocado a reboque de um setor da burguesia nacional, e esboçou  as primeiras orientações para o movimento operário e popular nas novas condições. Nesse documento, destacou que a política econômica-financeira da ditadura estava sendo ditada ditada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI),  denunciou que o novo regime destruiu as liberdades públicas, colocou na ilegalidade as organizações sindicais nacionais, como o CGT e as Ligas Camponesas, prendeu centenas de dirigentes sindicais, destituiu centenas de direções sindicais e impôs interventores nas organizações mais destacadas, acabou com o direito de greve e instituiu uma legislação salarial predatória ao longo de 21 anos.[2] 

Numa conjuntura dessa ordem o Comitê Central avaliou que o objetivo imediato era isolar e derrotar a ditadura e conquistar um governo amplamente representativo das forças antiditatoriais, ao mesmo tempo em que e conclamou as massas a desrespeitar a legislação ditatorial, especialmente no que se refere aos direitos de reunião, manifestação e de greve, lutar pela liberdade e autonomia dos sindicatos e participar de forma ativa e unitária das eleições sindicais.[3] O documento ressalta ainda a importância de se organizar os trabalhadores do campo contra o latifúndio e pela reforma agrária, com ênfase para a aplicação do Estatuto do Trabalhador Rural, garantia da posse da terra, regulamentação e baixas taxas de arrendamento. “É intensificando nossa atividade entre as massas, nas fábricas, nas fazendas, escolas e concentrações populares que poderemos forjar a ampla frente única contra a ditadura ... Devemos dedicar os maiores esforços à recuperação das organizações de base e à criação de novas, principalmente nas empresas, fazendas e escolas, e seu fortalecimento político, político e ideológico, capacitando-as a cumprirem suas pesadas tarefas”.[4] 

Em 1966, já refeito do trauma do golpe militar, o Partido elaborou uma reflexão mais aprofundada sobre a conjuntura e os erros que levaram à derrota do movimento popular e, especialmente, do próprio Partido Comunista Brasileiro (PCB), na época a maior organização da esquerda no País, bem como iniciou a construção de uma nova estratégia de construção do PCB entre os trabalhadores tendo como centro as grandes empresas. O documento de maio de 1966, assinado por Carlos Oliveira, nome de guerra de um membro do Comitê Central, além da autocrítica mais completa sobre as causas da derrota em 1964, enfatiza a necessidade de uma nova estratégia de construção do Partido entre o proletariado. Oliveira argumenta que antes do golpe, apesar das recomendações partidárias, os responsáveis pelo trabalho junto à classe operária davam mais atenção ao trabalho de cúpula do que a construção nas bases e nos locais de trabalho.

Em uma dura autocrítica, o documento assinala: “A atividade nas bases, isto é, nos locais de trabalho, nas empresas, foi subestimada e quase não era realizada. E quando o era representava apenas um elemento auxiliar da atividade das cúpulas sindicais. Com o golpe, as lideranças sindicais foram ameaçadas, demitidas, presas, etc., e os sindicatos invadidos, depredados e entregues a interventores da escolha e confiança da ditadura”.[5] Continuando a autocrítica, o documento indica que as articulações daquela época não era mesmo um movimento operário, mas um movimento reformista, economicista, cupulista, sem vínculo efetivo com as bases: “A atividade do Partido junto aos trabalhadores tinha um caráter predominantemente sindicalista, reformista, não revolucionário. Na prática, ou no fundamental, éramos simples força auxiliar das cúpulas sindicais e dos sindicatos”.[6]

A declaração destaca ainda que, mesmo com experiência dolorosa do passado, muitos ainda resistem à autocrítica porque falta a compreensão de que não se deve confundir movimento operário com atividade sindical ou movimento sindical, afinal o trabalho sindical do Partido é apenas um elemento da atividade junto aos trabalhadores. Por isso, o documento ressalta que é necessário mudar essa visão distorcida e levar a atividade do Partido para dentro das empresas, que é o centro da resistência operária.

Para o articulista da Voz Operária, isso não significa de forma alguma deixar de lado ou abandonar o trabalho junto aos sindicatos e às lideranças das cúpulas operárias, especialmente levando em conta a conjuntura do país. No entanto, argumenta que o trabalho junto aos sindicatos deve ser melhorado, aperfeiçoado e intensificado mas se torna um erro confundir a atividade puramente sindical com o movimento operário. Ressalta ainda o artigo  que nas condições de em que o País se encontra qualquer movimento reivindicatório de caráter econômico choca-se com a política da ditadura, muito embora isso ainda não signifique que a classe operária consiga espontaneamente adquirir consciência da relação entre suas condições de vida e a ditadura. Por isso, os comunistas devem levar essa compreensão à classe operária.

A justificativa do autor tem um fundo ideológico muito importante e parece que artigo buscava intervir na disputa interna ou demover resistências à nova orientação que ainda existia naquele período, possivelmente em função do hábito do processo anterior. “Voltando a nossa atividade para a empresa, centro de gravidade do movimento operário, não o fazemos como sindicalistas, mas como revolucionários. Não o fazemos apenas para mobilizar os trabalhadores em função dos sindicatos e das lutas por aumentos salariais e outras reivindicações econômicas. Mais do que isso, o fazemos tendo em vista esclarecer, educar e organizar a classe operária como força de vanguarda na luta pela renovação da sociedade brasileira. Limitar-se a uma atividade puramente ou eminentemente sindical, descer ao nível de compreensão das massas trabalhadoras e lá permanecer, circunscrever a nossa atividade a organizar a luta por reivindicações econômicas, é cair no reformismo sem consequência (inconsequente, EC). Como partido revolucionário, nossa atividade não deve e não pode ficar presa aos estreitos limites do sindicalismo. Deve e precisa ir além.”[7] 

Para Oliveira, essa compreensão é fundamental porque a classe operária deve ser a força aglutinadora da luta de todas as forças sociais contra a ditadura:  “A grande contribuição que a classe operária pode e deve dar hoje para a derrota da ditadura e sua substituição por um governo representativo das forças democráticas e antiditatoriais é unir-se e organizar-se em seus locais de trabalho e partir para as manifestações de massa cada vez mais vigorosas contra a ditadura, em defesa das liberdades democráticas, assumindo assim a vanguarda da luta de todo o povo pela redemocratização do País”.[8] 

Em novembro de 1966, a Voz Operária voltava novamente ao assunto da atividade de organização dos trabalhadores nas empresas, ao relembrar que a ditadura estava buscando transformar os sindicatos em entidades apenas assistencialistas e que era necessário aliar e combinar a atividade sindical com o trabalho de construção no interior das fábricas: “A atividade dos comunistas deve dirigir-se no sentido de organizar e desenvolver a unidade de ação da classe operária na luta pelos seus interesses econômicos e políticos imediatos e contra a ditadura. Corrigindo erros do passado, quando o peso de nossas atividades recaia no trabalho de cúpula, devemos orientar fundamentalmente nosso trabalho para as empresas ... Ao mesmo tempo, os comunistas devem intensificar suas atividades nas entidades sindicais, fazendo uma justa combinação entre o trabalho legal e o ilegal, compreendendo que, por mais difícil que seja a atividade nos sindicatos, jamais poderemos aceitar a tese de abandoná-los, a pretexto de que nas atuais condições (os sindicatos) já não desempenham nenhum papel”.[9]

Construir o PCB nas empresas parecia ser quase uma obsessão dos dirigentes do Partido naquela época, possivelmente porque tinham compreendido a profundidade da derrota, e estavam seguros de que era fundamental mudar o rumo da política de organização do Partido entre o proletariado, muito embora ainda não existisse um plano concreto para viabilizar essa nova orientação. Pelos depoimentos que recolhemos nessa pesquisa, o PCB conseguiu preservar células orgânicas em várias empresas, apesar da brutal perseguição do regime. Lúcio Bellentani, que posteriormente seria a principal liderança desse processo de construção do partido nas grandes empresas, afirma que entrou na Volks em 20 de setembro de 1964, como ferramenteiro, e lá já encontrou militantes do PCB, quando então decidiram construir uma organização de base na empresa, o que se consolidou em 1965.

A partir de então esse trabalho seguiu de maneira articulada e clandestina, chagando a se constituir células de base em praticamente todas as seções de trabalho da empresa.[10] Provavelmente, o PCB tinha células operárias em outras regiões, mas decidimos concentrar nossa pesquisa na região do ABC, tanto por esta ter se tornado o polo mais industrializado do País como também porque foi no ABC que o Partido concentrou seu trabalho piloto, visando desenvolvê-lo posteriormente para outras cidades.

Às vésperas do VI Congresso, realizado em dezembro de 1967, a Voz Operária voltou novamente a abordar a necessidade de construção do PCB nas grandes empresas em um documento de novembro de 1967, intitulado “Porque e como devemos construir o Partido no seio do proletariado”, onde já abordava de maneira mais sistemática, com elementos táticos, ideológicos e estratégicos, as proposições seriam melhor elaboradas no VI Congresso. “O Partido só pode desempenhar um papel de vanguarda, isto é, de orientador e dirigente revolucionário das massas, se tiver as suas principais bases estruturadas e em ação no seio do proletariado, em suas grandes concentrações empresariais. Esta constitui uma das razões porque devemos construir o Partido no seio da classe operária ... Liderando parcelas da classe operária em qualquer local de trabalho ou de vivência das massas, o Partido tem condições adequadas para a função de dirigente das grandes massas”.[11]

Para executar essa tarefa, os dirigentes do PCB recomendavam um trabalho de longo prazo, articulado entre as várias instâncias de direção, com deslocamento de quadros, estrutura clandestina de organização, junção do trabalho legal e ilegal, com paciência e sem precipitações para não alertar o inimigo sobre o trabalho que seria desenvolvido. Após indicar que um elemento central para o êxito desse trabalho é uma justa linha política na qual se conceba a revolução como um fenômeno de massas e não como ocorre com a política foquista, mediante à qual se privilegia a ação de pequenos grupos, isolados das massas, que se imaginam heróis da classe operária, o documento esclarece:

“O trabalho revolucionário para se erigir o partido no seio do proletariado urbano e rural tem que ser feito o mais sigilosamente possível, pois é a raiz da revolução que crava no próprio sustentáculo do inimigo de classe, as empresas capitalistas. Este (trabalho, EC) tanto pode ser feito de dentro como de fora para dentro, mobilizando quadros, organizações e órgãos dirigentes e todo o seu aparelho de propaganda, de material e de ação para este objetivo”.[12] Para os dirigentes daquela época a tarefa deveria ser conduzida a partir da realidade concreta dos trabalhadores e não da pressa pequeno-burguesa, que costuma queimar etapas e levar a divisão à classe operária.

O trabalho de construção de uma organização revolucionária no interior da cidadela do inimigo deve ser encaminhada com uma linha política clara, planificação, controle, distribuição de tarefas e engajamento do partido nessa tarefa: “Um outro instrumento para a construção do Partido entre o proletariado é a clareza de objetivos nesse sentido, no âmbito nacional, estadual, municipal, distrital e local. A dinâmica da luta de classes exige um plano e controle sistemático de sua execução, considerando os inimigos que o proletariado enfrenta e que desejam sua divisão e destruição ... Sem um plano multifacético e um controle sistemático, é muito difícil, e talvez impossível, construir o Partido nas empresas. Essa tarefa do mais alto sentido revolucionário não pode ser considerada como sendo de algumas pessoas, de uma frente do Partido ou de um organismo. É um objetivo essencial, permanente e integral portanto, de todo o Partido, de todos os organismos e órgãos dirigentes do Partido. Somente um trabalho coordenado global dos militantes pode levar a um bom êxito esse empreendimento.”[13]

O VI Congresso e a tarefa histórica

O VI Congresso do PCB marcou uma virada histórica tanto na linha política em relação à ditadura, quanto na área sindical e, especialmente, em relação à construção do Partido nas grandes empresas. Nesse congresso elaborou-se uma resolução que caracteriza de maneira mais precisa a realidade brasileira no que refere às questões socioeconômicas, particularmente em relação à composição industrial a agrícola do país. Ressaltou-se que a economia passou a ter seu centro dinâmico no mercado interno, que o Estado passou a ter um papel importante no desenvolvimento econômico e que a ação do imperialismo provoca a drenagem de parcelas significativas da riqueza nacional para os países centrais e que a ditadura reforça a dependência do País. Enfatiza ainda que o latifúndio é um entrave para a expansão das forças produtivas, mas não obscurece o peso da penetração do capitalismo no campo. No que se refere aos trabalhadores, a resolução constata a emergência e concentração do proletariado nas indústrias de ponta, como automobilística, química, mecânica pesada, construção naval, eletrônica e de material elétrico, o aumento expressivo do número de assalariados rurais, trabalhadores da área do comércio e dos serviços e um aumento exponencial dos habitantes das cidades.[14] 

O VI Congresso definiu que o proletariado brasileiro é a força motriz e principal da revolução. O campesinato e a pequena burguesia urbana constituem com ele as forças fundamentais. No entanto, como era a linha política daquela época, afirmava que a burguesia nacional, tendo interesses objetivos na emancipação do País, seria uma força capaz de opor-se ao imperialismo e de participar da revolução em sua presente etapa. Mesmo assim insistiam que a classe operária, unida à pequena burguesia urbana e ao campesinato, deveriam lutar para conquistar a hegemonia no processo revolucionário.[15] 

“A condição política fundamental para a transição ao socialismo reside na hegemonia do proletariado ... Esforçando-se para conduzir a luta contra o imperialismo e o latifúndio, as mais amplas massas da população brasileira, inclusive a burguesia nacional, os comunistas exercerão seus esforços principais na mobilização do proletariado e formação de uma sólida aliança coma s forças fundamentais da revolução – os camponeses e a pequena burguesia urbana – a fim de colocar o proletariado em condições de conquistar o papel dirigente no bloco das forças revolucionárias.”[16] 

Definidas as tarefas fundamentais e tendo o proletariado como centro do processo revolucionário, muito embora mantivessem certas ilusões em relação á burguesia nacional, o VI Congresso elaborou os elementos estratégicos e táticos para aquilo que considerava seu desafio histórico: a inserção do proletariado nas grandes empresas.

“O desafio histórico que se coloca diante dos comunistas brasileiros é o da construção de um forte e numeroso partido na classe operária. Somos a organização política que, ao longo dos tempos, levantou com firmeza os interesses básicos dos trabalhadores. Somos o Partido que possui os mais experientes quadros operários. Muitas das conquistas da classe operária, direta ou indiretamente, foram alcançadas em lutas que os trabalhadores empreenderam sob a direção do Partido. Fortalecer o Partido na classe operária significa, antes de tudo, do ponto de vista nacional, elaborar um plano a longo prazo para a construção e o reforçamento das organizações partidárias nas grandes empresas. As direções deverão acompanhar atentamente a vida das organizações de base nas empresas. O recrutamento de novos membros para o partido, particularmente nas empresas, deve ter curso no processo de luta de massas.”[17]

O VI Congresso elaborou também as diretrizes para a atuação do Partido no movimento sindical e inserção nas organizações legais dos trabalhadores. Como formulação tática para colocar e desenvolver a luta dos trabalhadores, o Partido orientou no sentido de que a luta deveria partir das reivindicações mais concretas, como melhores condições de vida, aumento de salário, liberdades democráticas, direito de reunião e manifestação, além das reivindicações trabalhistas cotidianas. Nessa perspectiva, para o Partido, cada vitória nas lutas cotidianas, por menor que fosse, acumularia forças para outras lutas e os trabalhadores ganhariam mais experiência e se tornariam mais preparados para lutas futuras.

A partir desses pressupostos, o Congresso definiu orientação para o trabalho nos sindicatos por entender que essas organizações sociais se constituem no principal meio de ativação do movimento operário, o que significa dizer  que os comunistas também deveriam realizar uma ampla política de filiação dos trabalhadores aos seus sindicatos. Nesse processo, deveriam aproveitar todas as formas de participação legal, inclusive participando das CIPAS, delegacias sindicais, cooperativas, etc., para ampliar os laços efetivos com os trabalhadores. Entre as orientações do congresso também constava atenção especial aos comunistas que assumissem postos de direção nos sindicatos e outras organizações de massa, de forma a que essas lideranças se tornassem os melhores dirigentes populares.[18]

A propósito, a Voz Operária de abril de 1968, traz uma importante orientação sobre a dialética trabalho sindicato-organização nas empresas, ao enfatizar que essa atuação têm uma importância fundamental porque são instrumentos de luta por melhores condições de vida para os trabalhadores e suas decisões facilitam o trabalho dos comunistas dentro das empresas. Portanto, diz o documento, a atuação no sindicato deve ser cotidiana e em estreita ligação com a organização nos locais de trabalho.

“O comunista na empresa deve ser um propagandista do sindicato, campeão da sindicalização, estar em dia com o que se passa em sua entidade profissional e levar e levar os trabalhadores a lutar pela aplicação de suas decisões. Nesse sentido, é de vital importância combater as tendências que levam a não atuar nos sindicatos, sob o pretexto de que os mesmos são dirigidos por policiais ou que a ditadura não permite. Por mais difícil que sejam as condições, devemos atuar intensamente dentro dos sindicatos, levar a massa a participar de sua vida e, dentro deles, luta para modificar a composição das diretorias que não correspondem aos interesses da classe operária”.[19] 

Mas o documento alerta que esse trabalho deve se combinar com a luta e a organização no interior das empresas. “É através dos combates diários dentro da empresa que os trabalhadores vão adquirindo experiência e consciência cada vez maior de que sua força reside na unidade e na organização, de que dessa unidade e organização depende a conquista de vitórias que, por pequenas que sejam, vão acelerando a derrota da ditadura ... Sem dúvida o trabalho dentro das empresas é uma tarefa penosa e difícil nas circunstâncias atuais. Nós comunistas, que lutamos pelo poder político para a classe operária, devemos saber encontrar em cada local de trabalho os meios e as formas de nos identificarmos com as massas, de nos fundirmos com elas, sentir seus problemas e com elas encontrar a melhor maneira de solucioná-los”.[20] 

Com a elaboração das diretrizes táticas e estratégicas, em junho de 1968 a Voz Operária publica um longo documento de duas páginas e meia, assinado por Murilo W. Meirelles, nome de guerra de outro dirigente do PCB, onde desenvolve mais amplamente as resoluções do Congresso e justifica teoricamente as razões e o significado do trabalho de inserção do Partido nas grandes empresas. Com o título igual a um documento anterior, “Como e porque construir o partido nas empresas”,[21] Meirelles reforça o entendimento de que a construção do Partido nas grandes empresas é uma missão histórica porque nas condições industriais e tecnológicas em que o Brasil atingiu, o proletariado se encontra concentrado exatamente nas empresas e, especialmente, nas grandes empresas.

Além disso, trata-se de um proletariado muito jovem, onde mais de 50% têm até 20 anos. Portanto, constitui um celeiro de futuros quadros que, ao serem se recrutados, podem se transformar em importante instrumento de renovação do partido, podendo inclusive mudar o perfil do Partido. Meirelles avalia que a concentração operária nas grandes empresas traz uma série de vantagens em relação a um ambiente em que a maior parte dos operários trabalha em pequenas empresas, uma vez que, nos pequenos estabelecimentos, os patrões podem exercer influência direta sobre os empregados, enquanto nas grandes empresas isso não acontece. “Nas grandes empresas, centenas ou milhares de operários nem chegam a conhecer os exploradores e tendem à maior solidariedade, unidade e combatividade”.[22]

Meirelles também enfatiza outras características fundamentais da organização partidária nas grandes empresas, ao constatar que a grande maioria do proletariado tem origem recente no campo e geralmente traz consigo elementos de atraso, como a ideologia pequeno-burguesa individualista e aspirações materiais mínimas. “Mas é somente nas grandes empresas, onde são rapidamente absorvidos e integrados no coletivo operário, que se nivelam aos demais ... Cada operário sozinho se sente esmagado pelo sistema vigente, mas só nas grandes empresas o proletariado encontra forças para resistir e lutar e onde apalpa (sic) o valor de seu peso específico – milhares de um lado e o patrão de outro. Na empresa e, em particular, na grande empresa, descobre o valor de sua força ao acionar ou paralisar as máquinas, que são as vigas mestras que sustentam o sistema de produção. É o estrato operário dos grandes estabelecimentos, por sua característica de absoluta proletarização, quem pode neutralizar a instabilidade e as inconsequências dos estratos provenientes dos setores improdutivos que integram o vasto mundo que hoje é a estrutura da classe assalariada”.[23]

Outra característica importante para a luta de classes, conforme assinala o artigo,  é o fato de que os operários concentrados nas grandes empresas se habituam com frequência a se relacionar com grandes contingentes de massas e, ao se tornarem lideranças,  já adquiriram culturalmente as condições para dirigi-las. Além disso, a própria vida prática do ofício nas grandes empresas, com sua hierarquia, integração e disciplina, facilita sua integração numa organização partidária comunista.

“O operário do grande estabelecimento se habitua a movimentar e a lidar com grandes contingentes humanos, condição necessária para se formar como quadro. Neste tipo de local de trabalho, como no complexo metalúrgico, mecânico, elétrico, da petroquímica, dos principais meios de transportes, etc., onde se espraia a mecanização e a automatização, o maior número da mão-de-obra qualificada, de nível cultural mais elevado, com maior tendência à unidade, à organização é, obviamente, propício a produzir líderes e quadros ... Pelos organogramas das empresas, no sistema de sua organização e de produção, os empregados são integrados e funcionam em tal hierarquia e democracia (sic), assim como numa disciplina e num coletivo que facilita naturalmente sua estrutura orgânica e integração ideológica nos princípios partidários, na sua democracia e disciplina. Facilita a construção e a consolidação das organizações de base, bem como a formação de suas direções”.[24]

Para aplicar de maneira correta as tarefas do desafio histórico formulado no VI Congresso, Meirelles elaborou um longo histórico de experiências do Partido desde a década de 40 do século passado, procurando para cada momento ressaltar tanto a orientação política quanto os erros e acertos na sua aplicação, de forma a que se recolhessem as experiências positivas e não se repetissem novamente os equívocos do passado. Meirelles destaca que, após o golpe de 1964, algumas iniciativas de construir o Partido nas empresas foram feitas por organizações estaduais e locais e o partido inclusive destacou quadros qualificados para essa tarefa. Muito embora muitas dessas iniciativas tenham tido êxito, não significou uma mudança de qualidade na ação do Partido para cumprir essa tarefa, como propõe a resolução do VI Congresso.  Meirelles recomenda ainda que na execução dessa nova tarefa o Partido deve levar em conta os elementos específicos entre empresas públicas e privadas, nacionais e estrangeiras, bem como as características dos diversos setores da economia, como o industrial, o agropecuário e o setor terciário, além das características específicas da própria empresa em que se vai desenvolver o trabalho.

Metodicamente, o documento elenca especificamente que, para não dispersar forças, o Partido deveria estabelecer uma política de concentração, além do balanço das tarefas ao longo de todo o processo de implementação dessa política. Para tanto, deveria estabelecer prioridades na distribuição de quadros experientes, inclusive recomendando que se empregassem em grandes estabelecimentos ou se transferirem de pequenas para grandes empresas. Essas tarefas deveriam envolver todos os organismos do Partido, bem como era necessário ainda um plano de agitação, propaganda e formação, além de orçamento visando atingir os objetivos.  Reconhecendo as dificuldades e complexidade de realização de uma tarefa dessa ordem o documento ressalta algumas recomendações específicas, com muita atualidade até nos dias de hoje:

“O inimigo é vigilante e reforça, à base de sua experiência, a vigilância nos locais de trabalho e é impiedoso. Realiza a repressão, a infiltração e a corrupção. Por isso, é preciso aprender bem a lição histórica de necessidade de absoluto sigilo e vigilância na organização e ação dos militantes estruturados. Cada tarefa interna ou externa, como distribuição de material, figurar em comissões, no trabalho sindical ou outra qualquer, exige a distribuição adequada das responsabilidades, tendo sempre em vista a possibilidade de uma descoberta, uma denúncia, uma demissão do emprego ou a repressão. Não se trata de recuar nas funções revolucionárias, mas de distribuir de tal maneira os ativistas para que, mesmo ocorrendo uma fatalidade, não venha a ser atingida toda a organização ou os quadros mais eficientes. Somente assim é possível agir e continuar, continuar e consolidar para sobreviver em qualquer situação política – nacional ou local. Lembremo-nos sempre: na empresa é onde a luta de classes é antagônica à conciliação, onde ela é firme e consequente até o fim”.[25] 

Todo o trabalho de organização no interior das empresas se tornou muito mais difícil com a decretação do Ato Institucional No. 5, de 13 de dezembro de 1968, quando na prática ocorreu um golpe dentro do golpe e a ditadura desenvolveu um regime claramente fascista. Vale lembrar que, antes do AI-5, o ano de 1968 foi marcado por grandes mobilizações dos estudantes, dos intelectuais, artistas, bem como duas grandes greves operárias que vieram questionar mais fortemente o regime. Passeatas foram realizadas no Brasil inteiro, especialmente após o assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto, no restaurante universitário do Calabouço, um local onde os estudantes pobres faziam refeições diárias no Rio de Janeiro.

A principal dessas passeatas foi realizada em 26 de junho de 1968 no Rio de janeiro, quando reuniu cerca de 100 mil manifestantes e ficou historicamente conhecida como a passeata dos 100 mil, mas ocorreram manifestações em todas as grandes cidades do país. Em 12 de outubro de 1968 ocorreu um duro revés para o movimento estudantil e a União Nacional dos Estudantes (UNE), que vinha efetivamente comandando as manifestações de massa no País. Todos os cerca de 700 delegados presentes ao XXX Congresso da UNE, que estava sendo realizado clandestinamente em um sítio na cidade paulista de Ibiúna, foram presos numa operação comandada pelo DOPS de São Paulo, com o apoio do Exército. Em outras palavras, todas as lideranças estudantis foram apenhadas pelo regime, levando a uma progressiva desarticulação do movimento, especialmente após o AI5.

Mas antes do AI-5 ocorreram também greves operárias contra o arrocho salarial, mas nenhuma teve a dimensão das duas principais greves de 1968. A primeira das greves ocorreu na cidade industrial mineira de Contagem e começou em 16 de abril na Companhia Belgo Mineira, quando os operários fizeram reféns os diretores da empresa e se declararam em greve. Depois o movimento se espalhou por outras 17 fábricas, tendo como reivindicação um aumento salarial de 25%. Foi uma greve que nasceu a partir da base operária. Como diz Voz Operária: “Os operários permaneceram durante 24 horas parados dentro da empresa, organizados e unidos, serenos, confiantes na sua força, dialogando com os engenheiros e mesmo com soldados da PM que vieram sitiar a empresa. Os grevistas não se assustaram com o aparato policial. Decidiram dialogar, explicar a greve, argumentando com os soldados mais acessíveis que os próprios soldados não podiam viver com os soldos miseráveis que o governo lhes pagava e que o arrocho salarial também os atingia”

A greve surpreendeu a ditadura e o próprio sindicato local: o próprio ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, se deslocou até Minas Gerais para negociar uma solução da greve, bem como o sindicato também começou a se envolver nas negociações. Ao final de nove dias de greve o governo concedeu um abono aos trabalhadores de Contagem, que posteriormente foi estendido a todos os trabalhadores do País. Foi uma grande vitória operária porque começou a quebrar o arrocho salarial e o governo se comprometeu a não punir os grevistas. Nesse movimento teve um papel importante o camarada Neres, dirigente do PCB de Minas Gerais, posteriormente preso pela ditadura. Foi último preso político a sair da prisão com a anistia.

Mas a maior e mais organizada greve do período foi realizada pelos operários da cidade industrial de Osasco. O sindicato dos metalúrgicos da região fora ganho pela oposição sindical, comandada por José Ibrahim, e desenvolveu um intenso trabalho de organização no interior das fábricas – os chamados Grupos dos 10, que logo se espalharam pelas empresas da região. A nova diretoria programou uma greve da categoria para novembro de 1968, mas como as bases estavam já estavam fazendo greves espontâneas, então a direção resolveu antecipar o movimento grevista para junho. A greve foi tão bem organizada que um panfleto elaborado dias antes descrevia exatamente como deveria se processar a greve. “As 8.45 horas as Indústrias Granada e Barreto Kelly aderiram à greve e todos os trabalhadores saíram juntos das fábricas marchando para o sindicato ... Duas horas depois a Lonaflex parou, declarando-se solidária ao movimento grevista”.[26] E tudo ocorreu exatamente como descrevia o panfleto.

A repressão ao movimento foi violenta, num nível maior ao que os líderes metalúrgicos imaginavam. As forças  do Exército invadiram a cidade, com soldados da Força Pública e do DOPS, com cavalaria, brucutus, controle da entrada e saídas da cidade e cerco às fábricas, exigindo que os operários abandonassem as empresas. Na Cobrasma, a maior de todas, os trabalhadores resistiram dentro da fábrica e a polícia invadiu o estabelecimento. Ocorreu uma batalha campal no interior da fábrica ao longo da noite e pela manhã a polícia prendeu 300 trabalhadores. Enquanto isso, o governo decretava intervenção no sindicato e nomeara um interventor, que tentou entrar no Sindicato com um pelotão policial, mas os trabalhadores o impediram de entrar no prédio. Novamente a polícia invadiu o sindicato e prendeu lá dentro mais 80 trabalhadores. A partir daí o movimento arrefeceu a greve foi derrotada, mas significou o momento mais elevado da luta de classes naquele ano.[27]

*Edmilson Costa é doutor em economia pela Unicamp e secretário geral do PCB.

 

 

 

 

 

PCB e o Trabalho clandestino nas fábricas (2)

Um plano detalhado de inserção no proletariado 

Edmilson Costa*

O jornal Voz Operária de janeiro de 1969 destaca com veemência que o AI-5 teve como objetivo golpear o movimento operário para ampliar as arbitrariedades contra os sindicatos e, inclusive, contra a Justiça do Trabalho. Portanto, os trabalhadores estão diante de condições muito mais difíceis que o período anterior e que nessas circunstâncias a unidade e organização dos trabalhadores assumem um papel ainda mais decisivo na luta contra a nova ofensiva da ditadura. O jornal registra ainda que as novas medidas tomadas pelo regime foi uma reação à movimentação e greves dos trabalhadores na luta contra o arrocho salarial.

“O ano de 1968 marcou um nível mais alto nas lutas dos trabalhadores, depois de enfrentarem e superarem enormes dificuldades impostas pelo golpe de abril de 1964. Em vários Estados foi golpeada a política de arrocho salarial. Numerosas e vigorosas greves foram desencadeadas em importantes setores profissionais, como bancários, metalúrgicos, gráficos e assalariados agrícolas. Libertos das intervenções, grande parte dos sindicatos começou a passar às mãos de verdadeiros representantes dos trabalhadores. Concorridas e movimentadas assembleias eram realizadas. Importantes encontros de âmbito regional e nacional eram promovidos, contribuindo para uma unidade mais ampla dos trabalhadores em torno de programas comuns”.[28] 

Nessa conjuntura e diante das novas dificuldades, um novo e árduo caminho deverá ser perseguido, diz o número seguinte do jornal. Mesmo sem abrir mão do trabalho sindical, apesar da ditadura querer transformar as entidades em instituições recreativas, a hora é redobrar esforços para organização do trabalho no interior das empresas. “... Os trabalhadores devem ter certeza de uma coisa, que a base de sua organização é a empresa. Podem fechar os sindicatos ou limitar seu poder de decisão. Entretanto, as fábricas eles não fecham. Sem deixar um só momento a luta pelo fortalecimento de seus sindicatos, através de uma maciça sindicalização e participação em suas atividades, os trabalhadores devem intensificar cada vez mais a sua organização nos locais de trabalho. Não importa as formas de organização, se conselhos sindicais ou comissões sindicais, etc. O importante é unir e criar as condições mais elementares de organização. No processo de lutas por suas reivindicações, quer no âmbito das empresas ou das reivindicações gerais, os trabalhadores criarão as condições ... para o desenvolvimento de lutas de lutas vigorosas da classe operária e do nosso povo contra a ditadura implantada em nosso País desde abril de 1964”.[29]

Por iniciativa do Comitê Central (CC), em outubro de 1968, foi realizado um ativo sindical[30] nacional para se debater o desafio histórico de construção do Partido na classe operária e, especialmente, nas grandes empresas. Em fevereiro de 1969 o próprio CC formulou uma resolução em que determinava a todos os Comitês Estaduais e Territoriais a construção do Partido nas empresas, “fundamentalmente nas grandes empresas”, bem como estimulava todas as organizações partidárias a realizarem encontros visando a permuta de experiências e as formas de organização do Partido nas empresas. Na edição de julho de 1969 a Voz Operária divulgou um longo documento onde fundamenta o desafio histórico aprovado no VI Congresso, refirmando a concepção de que a revolução é um fenômeno de massas e não pode ser guiada pela ação imediatista da pressa pequeno burguesa; realiza um diagnóstico das modificações ocorridas na sociedade brasileira, tais como a dinâmica do processo de industrialização, a concentração do proletariado nas grandes empresas e o aumento dos assalariados no campo, bem como destaca a proletarização de vastos setores da pequena burguesia e o crescimento desses setores nos centros urbanos. Essas modificações ocorridas no capitalismo brasileiro – ressalta o documento - não solucionaram os problemas que afligem a população. Por isso é fundamental organizar os trabalhadores nos locais de trabalho, preferencialmente nas empresas industriais.

Especificamente no que se refere à organização no interior das empresas, o documento realça que o trabalho na classe operária é determinante porque o proletariado fabril, ao estar integrado no processo de produção e ser explorado, reúne a característica de classe unida na luta por suas reivindicações e pelo socialismo de maneira mais firme e consequente que qualquer outra classe. Por isso, o Partido deve centralizar sua organização nos locais de trabalho da classe operária.

“Na grande empresa a exploração dos trabalhadores é muito maior, devido ao desenvolvimento tecnológico e a organização do trabalho, que contribuem para extrair do operário o máximo de suas forças. O trabalhador da grande empresa pode verificar com relativa facilidade como ele é explorado no trabalho, inclusive pelo seu esgotamento físico, e como se acumula a riqueza dos donos das empresas. A grandeza da fábrica e a variada complexidade de suas máquinas deixam claro para os operários porque eles não detêm os meios de produção. Trabalhando juntos, centenas e milhares de pessoas, torna-se mais fácil conhecerem-se entre si; sofrendo a mesma exploração, subordinados às mesmas normas e regulamentos do grande patrão, o caminho para a unidade, a organização a solidariedade fica mais claro e melhor para ser trilhado. Esses fatores fortalecem a consciência de classe, bem como estimulam o ódio aos patrões exploradores, aguçando a luta de classes e a necessidade de transformar esse sistema social e político numa sociedade em que não haja exploração do homem pelo homem”.[31] 

Para o PCB, a política de concentração nas grandes empresas não significa o abandono da organização nas empresas de serviços, comerciais, escolas ou escritórios ou trabalhadores rurais, afinal esses outros setores do proletariado são aliados do proletariado fabril no processo da revolução brasileira. A orientação do documento é que esse trabalho seja implementado a partir das reivindicações mais imediatas dos trabalhadores, pois isso é de mais fácil compreensão e aproxima os trabalhadores do Partido.

“Aqueles que ingressam no partido fazem por muitos motivos, porém a maioria não conhece a ideologia do Partido, nem assimila sua política de organização. A nossa primeira tarefa deve ser a de formar a consciência partidária entre os novos recrutas, através do trabalho ideológico e político em termos teóricos e práticos e de forma sistematizada. Sem isso o número de ativistas entre os filiados será sempre inexpressivo ... O trabalho de educação é decisivo nessa tarefa, porém é preciso compreender como educação não apenas os cursos, mas toda a atividade partidária, a vida do Partido, isto é, a vida revolucionária.”[32] Entre outras maneiras de formar a militância, o documento recomenda o estudo de livros e revistas, os círculos de estudo, seminários e cursos. Além dessas tarefas, o Partido faz ainda  um conjunto de recomendações aos órgãos intermediários no sentido de que devem estudar as condições dos seus locais de atuação, as empresas onde deverá ser realizado o trabalho e os problemas mais sentidos dos trabalhadores, porque só assim poderão se aproximar dos trabalhadores e cumprir o desafio história dessa construção.

Estavam assim criadas as condições para a construção prática do desafio histórico. Isso foi realizado através da elaboração de um plano detalhado sobre a construção de bases comunistas nas grandes empresas. Trata-se do documento de seis páginas no qual se estabelece os princípios, objetivos, diretrizes específicas, prazos e recomendações gerais, ou seja, um roteiro pormenorizado para a implementação do plano[33]. Datado de fevereiro de 1970, o documento se intitula “Roteiro do Plano de Construção e Consolidação do Partido nas Empresas (Placconpe)” e seus redatores o dedicam ao centenário de Lenin. Mais uma vez o documento reafirma que a construção do Partido nas grandes empresas, tanto nas empresas industriais, dos transportes, comunicação, comerciais, de serviços e agroindustriais e agropecuária e entre os assalariados rurais, é uma tarefa estratégica para a luta não só para derrotar a ditadura, mas para criar as condições para a realização da revolução brasileira.

O Plano estabelecia para as organizações de base do partido um prazo de dois anos para a implementação das tarefas e estabelecia que cada escalão partidário deveria realizar uma planificação específica para o trabalho de organização das bases em sua área de atuação, bem como determinava que o Comitê Central deveria realizar uma política de destinação de recursos para a construção e consolidação do plano. Como o documento enfatiza, para que seja realizado um processo de construção e consolidação organizativa, presume-se que já existiam bases organizadas e que o plano se encarregava de absorver as experiências em curso e definir um trabalho metódico e planejado a partir de agora.

Para os redatores do documento, o Placconpe abriria caminho para a aplicação plena do desafio histórico definido pelo VI Congresso e contribuiria para organizar e conduzir as massas para tarefas como a luta pela conquista das liberdades, a anistia geral, a convocação de uma assembleia constituinte e a formação de um governo das forças antiditatoriais. Nesse processo, diz o documento, é fundamental garantir uma posição independente da classe operária que, com essas diretrizes, prosseguirá sua luta até a conquista do socialismo no Brasil. Em termos práticos, o Placconpe fixava as seguintes diretrizes para a construção do Partido entre os trabalhadores nos seguintes setores:  “Nas massas das empresas industriais, fundamentalmente nas grandes empresas; nas empresas de transporte, comunicação e nos grandes empórios comerciais; nas empresas agroindustriais e agropecuárias (bem) como entre assalariados e semi-assalariados agrícolas, fundamentalmente nas grandes concentrações; nos serviços públicos, nas universidades e escolas técnico-profissionais, incluindo professores e estudantes fundamentalmente”.[34] 

O documento esclarecia que era importante fortalecer as organizações já existentes nas empresas e formar novas organizações de base dentro de uma política de massas, visando ligar essas células clandestinas às organizações de massa nas empresas e nas categorias profissionais. Entre os pré-requisitos para que um plano dessa natureza tivesse êxito era necessário um diagnóstico sobre a área de atuação de cada organização de base, sobre as empresas onde será realizado o trabalho, bem como em relação à qualidade do militante a ser recrutado (operário, líder de massas, jovem, técnico) de forma a desenvolver uma política de construção dentro da cultura comunista, especialmente levando em conta o centralismo democrático.[35]

O Placconpe recomendava ainda que o trabalho de construção nos locais de trabalho deveria ser combinado com o fortalecimento dos sindicatos nas empresas e junto aos trabalhadores, além do necessário trabalho ideológico de formação para elevar a consciência revolucionária dos quadros dirigentes de forma a estimular iniciativas e firmeza nas ações de massa. Outro elemento importante do plano era o processo de planificação e assimilação da linha política elaborada no VI Congresso e o trabalho de solidariedade entre os trabalhadores.

“Planificar, em cada escalão partidário, a formação de direção de base da empresa e também de camponeses e estudantes. Ajudá-los a assimilar e aplicar a linha política do Partido e, igualmente, a formação de quadros, incluindo cursos, círculo de estudos, palestras, debates e pesquisa e etc. A planificação dessa medida deve ser iniciativa dos órgãos intermediários, com o apoiamento das organizações de base ... Orientar a organização e o funcionamento da solidariedade de massa e a prática do internacionalismo proletário em todos os escalões partidários, ganhando as bases para a participação ativa do trabalho de solidariedade”.[36] 

O Plano também definiu um roteiro de discussão e implementação das tarefas, ressaltando que esse trabalho estaria subordinada ao Comitê Central. As discussões deveriam começar nos Comitês Estaduais, Territoriais e nas Grandes Empresas, onde seriam aprovados os objetivos, diretrizes e metodologias de trabalho e, posteriormente, essas discussões iriam ser realizadas pelos órgãos intermediários e de base, que deveriam especificar as tarefas de cada órgão na construção partidária, entre as quais as seguintes tarefas: 

“Relacionar as empresas existentes na área da organização, de acordo com o grupo de empresas (A, B C, e D), selecionar aquelas que devem ser objetivo de planejamento e definir as que são fundamentalmente importantes para a política de concentração ... Selecionando o que fazer ... onde e como, quem e quando fazer.”[37] Previa ainda a mobilização de militantes para que o processo de discussão envolvesse a todos, de forma a que pudesse implementar o plano de baixo para cima, onde os objetivos nacionais fossem resultado do debate realizado por cada base. Com essa estrutura de trabalho, o Placconpe advertia também para a necessidade de organizar os trabalhadores tanto para o trabalho legal quanto ilegal, bem como observar com atenção as normas de segurança e vigilância.

Finalmente, o Plano estabelecia o prazo de dois anos para o cumprimento dessas tarefas, divididos em dois períodos, envolvendo a preparação e execução; “O período de preparação é de seis meses – inicia-se em primeiro de maio e termina em 31 de outubro de 1970. O período de execução é de um ano e meio – inicia-se em primeiro de novembro de 1970 e termina em 30 de abril de 1972. O período de execução está dividido em três fases -   de seis meses cada uma – para efeito de controle global em todo o território nacional”[38]. Após o estabelecimento dos prazos, estabelecia-se um conjunto de medidas práticas que as organizações do Partido deverias fazer para aplicá-lo: “Recrutar e organizar os trabalhadores assalariados nos quatro grupos de empresas objetivados de acordo com os pré-requisitos estabelecidos; estruturar novas organizações de base de empresas e consolidá-las, fortalecendo as existentes e as novas, com a prática do trabalho ideológico e político das massas; recrutar e organizar nas empresas de âmbito nacional de grande região geográfica à base de planos específicos, sob o controle do CC (Comitê Central, EC) e apoiados nos órgãos estaduais e municipais, onde se encontram instalados, objetivando a construção e consolidação de cada organização.[39] 

Prossegue o documento de orientação do trabalho nas grandes empresas: “orientar os membros do Partido nas organizações de base a filiarem-se às entidades de massa da empresa ou categoria profissional e planificar na base e nos órgãos intermediários a formação e funcionamento das frações (órgão coordenador de uma determinada tarefa de uma categoria, EC); organizar o trabalho de finanças na organização de base e concentrar no Mês Nacional das Finanças (outubro); adotar no CC e em todos os órgãos intermediários uma política correta de destinação dos recursos financeiros para a construção e consolidação do Partido nas empresas, tendo em vista a política de concentração”.[40] O Placconpe previa ainda uma política de formação dos militantes, um trabalho de agitação e propaganda pelas bases e a distribuição do jornal clandestino do Partido, a Voz Operária, entre os trabalhadores.

Bellentani, o ferramenteiro da revolução

A região em que o PCB apostou como espaço-piloto para a implementação desse projeto foi o ABC Paulista e, especialmente, a maior empresa metalúrgica da região, a Volkswagen, que na época tinha cerca de 30 mil operários. A decisão de centralizar o trabalho no ABC estava dentro da análise da conjuntura brasileira e do desenvolvimento industrial que o Comitê Central tinha elaborado em resoluções anteriores para justificar a construção partidária nas grandes empresas. Isso porque nessa região encontravam-se praticamente todas as empresas automobilísticas, as maiores metalúrgicas e produtoras de autopeças do País, bem como o maior contingente do proletariado. Como o desafio histórico era a construção de um forte e numeroso Partido na classe operária, a decisão de centralizar o trabalho no ABC era o caminho natural do PCB. Além disso, o Partido tinha uma longa tradição na região. Em 1947 o marceneiro Armando Mazzo foi eleito prefeito de Santo André, tornando-se o primeiro prefeito comunista do Brasil.[41] Além disso, o PCB sempre teve bases operárias na região, mesmo após as perseguições realizadas pela ditadura. Essa tradição de luta na região possibilitava ao Partido ter um conhecimento melhor que outras organizações do teatro de operações onde iria desenvolver a construção das células comunistas. Por isso, o ABC foi transformado no local  privilegiado para essa operação política junto à classe operária contra a ditadura.

Vejamos o que nos informa o principal organizador do trabalho político na região, o ferramenteiro da Volks, Lucio Bellentani, que também era o secretário político do Comitê de Empresa da Volks e principal organizador clandestino dos operários na região. “Entrei para a Volks em setembro de 1964 e no início de 1965 o Antônio Turini, que já trabalhava na empresa e era militante do PCB, me recrutou. A partir daí começamos nossa militância. Mas é importante dizer que meu pai e minha mãe eram militantes do PCB. No início, começamos a discutir a necessidade de organizar o Partido na fábrica e no Município, mas essa organização visava inicialmente mais o trabalho de oposição sindical porque o Sindicato dos Metalúrgicos, naquela época, era dirigido por um grande pelego, o Paulo Vidal”.[42] O Partido chegou a lançar, em 1970, uma chapa de oposição no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Essa chapa era composta por militantes do Partido e por integrantes da cooperativa dos trabalhadores, mas não obteve êxito na eleição. “Uma coisa interessante nessa eleição é o fato de que Lula era da outra chapa e foi eleito como suplente à Federação dos Metalúrgicos”.[43]

A informação de que Paulo Vidal era um pelego e aliado dos patrões e da ditadura pode ser confirmada pela Voz Operária de junho de 1970, em matéria assinada por Amador Bueno, na qual ele relata uma série ações de Vidal contra a classe operária e, pelos dados objetivos que expõe, devia ser um militante que estava presente no movimento sindical da cidade e nas assembleias do sindicato.

“O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, além de se colocar a serviço das empresas, é um agente do aparelho policial e repressivo do governo, remetendo para o SNI, DOPS e etc., relatórios das assembleias, como fez na assembleia do dia 20 de fevereiro último, à qual tratava de debater o reajuste salarial do último dissídio coletivo ... Na assembleia do Cine Anchieta ... foi surpreendido com a participação de uma massa com mais de  mil trabalhadores e percebendo que a esmagadora maioria defendia um reajuste de 35% (enquanto ele queria apenas 30%, EC) e a unidade com os demais metalúrgicos do interior do Estado, procurou manobrar, ganhar tempo e vencer pelo cansaço. Ficou ainda mais apavorado com o nível de consciência política demonstrada pelos trabalhadores que renderam um minuto de silencio em homenagem e solidariedade aos companheiros presos pela ditadura. Percebendo que estava derrotado, o agente patronal foi manobrando, desde as 19:15 horas e só à meia noite, quando a massa cansada e irritada se havia retirado em sinal de protesto e a assembleia estava reduzida a 141 pessoas, é que permitiu a votação das resoluções”.[44] Só assim Paulo Vidal teria conseguido aprovar suas resoluções, inclusive impedindo a recontagem dos votos. As resoluções eram tão absurdas que o próprio Tribunal Regional do Trabalho não as aceitou e julgou o processo coletivo em conjunto com os metalúrgicos do interior, que aprovaram os 35%.

Na região do ABC concentrava-se não só o núcleo duro da classe operária, com centenas de milhares de trabalhadores sendo que a Volks era a maior fábrica da região. A organização do Partido na Volks, conta Bellentani, envolvia paciência, segurança e vigilância, afinal não se pode esquecer que o País estava vivendo uma ditadura. O Comitê Central, empenhado na implementação do projeto, prestava muita assistência às lideranças comunistas da região, com orientação e muitos cursos de formação política. Bellentani conta que entre os fatos que inspiraram a organização na Volks foram as leituras que fazia da guerra do Vietnã e a maneira como o general Giap organizava os guerrilheiros, de forma compartimentada, em plena guerra. Então Bellentani deduziu que, se era possível organizar guerrilheiros nas selvas, debaixo de balas e bombas, também era possível organizar os trabalhadores numa ditadura.[45] 

E assim foi feito. “Então fomos realizando o trabalho de organização. A base foi crescendo. Muitas vezes a gente fazia reunião dentro da própria fábrica, às vezes no vestiário, nos banheiros. Essas reuniões eram mais para a distribuição de tarefas e material, entrega de boletins, preparação para as assembleias no sindicato. Mas isso era feito com o máximo de cuidado: quando nos reuníamos, deixávamos alguém na porta dos vestiários vigiando. Se aparecesse qualquer estranho, o companheiro assobiava e a gente se dispersava”.[46]

Esse processo de organização foi se tornando cada vez maior com o recrutamento de novos militantes e o Partido chegou a ter organização de base em quase todas as seções da empresa. “Em 1970 e 1971 nós distribuíamos cerca de 300 exemplares da Voz Operária no interior da fábrica e tínhamos cerca de 200 operários contribuindo mensalmente para o Partido. Inclusive estávamos planejando comprar uma gráfica off-set, que na época era uma coisa muito avançada. Já tínhamos dinheiro para isso ... As bases eram organizadas pelas seções com no máximo seis pessoas.[47] 

A organização era compartimentada, onde os trabalhadores-militantes não se conheciam e apenas o responsável de cada base tinha contato com alguém do comitê dirigente dos comunistas da Empresa. “Esse Comitê era constituído pelos seguintes camaradas: Lucio Bellentani, Antônio Turini, Afonso Espanhol, Ane Marie e Henrich Plage. Esses dois últimos eram alemães, mas viviam há muito tempo no Brasil e o Heinrich Plage era gerente de um departamento da fábrica, o que nos permitia obter informações sobre os planos da empresa. Também fazíamos boletins no reco-reco, que era um mimeógrafo de mão. Mas a partir do momento em que a segurança da empresa começou a encontrar material nosso, aumentou a segurança e eles passaram a fazer revista dos trabalhadores na entrada e na saída da fábrica”.[48]

Como a empresa identificou que algo estranho estava acontecendo, começou também a se organizar para intensificação da vigilância e repressão aos trabalhadores. Dessa forma, o Comitê da Fábrica traçou uma nova estratégia tanto para a continuidade do trabalho dentro da empresa quanto em relação à segurança dos militantes. Quando tinham que distribuir algum material para os trabalhadores ou fazer panfletagem dentro da empresa, era feito um planejamento com vários dias de antecedência para que o material entrasse com segurança.

“Decidimos que os militantes deveriam levar o material dentro das marmitas, enrolados num saco plásticos embaixo do arroz ou do feijão. Aí íamos armazenando o material num fundo falso de um armário da ferramentaria até o dia em que iríamos distribuir. Nós tínhamos tanta atenção com a segurança que aqueles que companheiros  atuavam no sindicato se reuniam em separado dos que atuavam somente na empresa. O processo de distribuição era o seguinte: botávamos nos ganchos e nas esteiras e o material ir rodando pela fábrica e os operários iam pegando. Distribuímos também nos pontos de ônibus onde passavam os operários”.[49]

Da Volks o trabalho foi se estendendo para outras grandes empresas da região: “Tínhamos gente na Willians, Mercedes, Motores Perkins, Rolls Roice entre outras. Não eram tão organizados como na Volks, mas se espelhavam nesse trabalho que fazíamos na Volks e a assistências à organização nas outras empresas era feita pelos camaradas da Volks.”[50]

Um dos elementos mais importantes na estratégia do PCB era a formação política, através da qual seria possível formar quadros operários dedicados à revolução, uma vez que o Partido avaliava que os operários geralmente trazem consigo concepções estranhas ao proletariado e, caso fossem deixados à própria sorte, não iriam além da consciência sindicalista. Por isso, era fundamental o trabalho de educação política, conforme assinala a Voz Operária de fevereiro de 1971. “A experiência tem demonstrado que, apesar de todas as dificuldades ... é possível organizar bases do Partido nas grandes empresas. Entretanto, essas bases, em geral, só conseguem se consolidar na medida em que, ao lado do trabalho de organização, é levado à frente o trabalho de educação de seus membros”.[51] 

Nessa perspectiva, Voz Operária toma como exemplo o trabalho que estava sendo realizado no ABC paulista, muito embora numa linguagem cifrada para despistar a polícia. “A experiência de São Paulo tem demonstrado que uma atividade de massas concreta dentro da empresa – como tem sido o trabalho nos conselhos ou comissões sindicais ou, em alguns casos, o trabalho de agitação e propaganda em torno de problemas que estão afetando as massas da empresa em questão -, permite o recrutamento de novos membros para o Partido e a estruturação de novas bases. Daí em diante o trabalho de educação desses novos militantes,que atualmente está sendo feito em torno do estudo do “ABC do PCB”, adquire uma importância fundamental, uma vez que lhes permite a elevação do nível de conhecimento dos problemas do Partido e de alguns elementos de nossa teoria”.[52] Ou seja, o trabalho de formação era fundamental para a educação ideológica dos militância operária, contribuindo para impulsionar a ação tanto nas empresas quanto junto às massas.

Todo esse trabalho de organização caiu quando foi preso Amauri Dagnone, que era um antigo militante que atuava na área sindical e tinha conhecimento do comitê dirigente comunista da empresa. Ele não suportou as torturas e entregou seus camaradas. O primeiro a cair foi o principal dirigente, o próprio Bellentani, que começou a ser torturado dentro da própria empresa. Como Bellentani não colaborava com os torturadores, apesar da insistência de Amauri, que dizia que se ele não falasse a polícia o mataria, o próprio Amauri foi levado ao interior da Volks e foi apontando quem ele reconhecia como do Partido. “Contando comigo, foram sete prisões na Volks, Antônio Turini, Afonso Espanhol, Heinrich Plage, Ane Marie, Geraldo e Rubens. A direção da base caiu. Mas eles não abriram nada, tanto que a organização na empresa não caiu toda, nem a organização no município.”[53]

Essa organização só viria a ser desbaratada dois anos depois com ofensiva realizada contra o Partido na chamada Operação Radar em 1974/1975, quando a militância na região e praticamente toda a militância nacional do Partido foi presa e quando também foram assassinados na tortura um terço do Comitê Central, o principal dirigente da Juventude Comunista, dois dirigentes do Comitê Militar, organizados na Polícia Militar de São Paulo, e dirigentes estaduais, jornalistas e operários como Wladimir Herzog e Manuel Fiel Filho.

Bellentani costuma contar um episódio que teria despertado a fúria não só da Volks mas também da polícia política contra o Partido Comunista Brasileiro no interior da Volks. Foi exatamente no dia em que o então ditador Garrastazu Médici encarregou o ministro da Indústria e Comércio, Pratini de Morais, a representá-lo nas comemorações da fabricação de um milhão de carros pela Volks. Para tanto, confeccionou uma medalha (A medalha do Fusca) para dar aos operários. Como o Comitê de Fábrica tinha informações a partir de um de seus membros, que era da gerência, os comunistas prepararam uma recepção especial dentro da Volks para as autoridades. Eles confeccionaram 10 mil panfletos, introduziram clandestinamente na empresa e, no dia do evento, os colocaram nas esteiras da fábrica na hora da comemoração. Enquanto as autoridades estavam comemorando, entre as quais o governador Abreu Sodré e o prefeito Paulo Maluf, o panfleto denunciando os problemas que os operários vinham sofrendo e a própria ditadura, corria pela esteira para espanto e indignação dos presentes. Além disso, o Comitê Comunista fez uma intensa campanha junto aos trabalhadores para que devolvessem as medalhas.

“Grande parte das medalhas foram devolvidas nas bancadas das chefias. Quando eu estava preso os torturadores esfregaram na minha cara o jornalzinho que distribuímos naquele dia”[54]  Com as prisões dos dirigentes operários do PCB no interior da Volks e, posteriormente, com o desmantelamento e prisões dos outros militantes durante a Operação Radar, o trabalho dos comunistas foi desbaratado na região do ABC, muito embora em São Caetano, o dirigente do Comitê Central do PCB, José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula tenha sido por três vezes eleito para o Sindicato dos Metalúrgicos e em nenhuma conseguiu assumir por determinação da ditadura. Com essa operação, a polícia política conseguir desmantelar todo o trabalho que o PCB tinha desenvolvido na região.

O trabalho de organização do proletariado nas grandes empresas, com a experiência acumulado no ABC, já tinha se espelhado para outras regiões operárias do País. Uma das últimas experiências exitosas desse trabalho foi a greve dos motoristas e cobradores de ônibus na cidade de São Paulo, realizada em 1974, sob a direção do PCB, tendo à frente o presidente do Sindicato, Alcides Bouno, militante do Partido. O PCB tinha já organização de base na CMTC (Companhia Metropolitana dos Transportes Coletivos, empresa pública municipal) e em empresas privadas, além de dirigentes da Federação dos Transportes. Conforme noticiado pela Voz Operária, de junho de 1974, a greve ocorreu no dia dois de maio de 1974 e paralisou parcialmente a cidade, atingindo cerca de dois milhões de pessoas.

O movimento foi desencadeado em protesto contra o reajuste salarial determinado pelo Tribunal Regional do Trabalho, considerado insuficiente pelos trabalhadores. Para a Voz Operária, que noticiou o evento, o movimento obteve uma das maiores repercussões naqueles anos e demonstrou não só a insatisfação dos trabalhadores com a política salarial da ditadura, demonstrando que os trabalhadores já não suportavam mais os reajustes salariais abaixo da inflação, além do fato da organização do Partido junto aos motoristas e cobradores de ônibus. Além disso, o jornal informou ainda que a população foi simpática ao movimento, porque possivelmente já não confiava nas promessas das autoridades governamentais. Como foi realizada essa greve na maior cidade do País, em pleno regime de terror e ofensiva para liquidar o PCB? O articulista anônimo de Voz Operária descreve com tantos detalhes a greve dos ônibus na cidade de São Paulo, cujo relato demonstra que era testemunha ocular ou participante dos fatos relatados pelo jornal.

“No dia 2 de maio a cidade foi parcialmente paralisada com uma greve de motoristas e cobradores das empresas particulares. Esse movimento teve profundas repercussões, pois milhares de operários não puderam ir ao trabalho. A greve foi total nas seguintes empresas: “Alto do Pari”, 11 linhas; “Empresa Paulista de ônibus”, cinco linhas; “Viação Urbana Penhas”, cinco linhas; “Empresa São Miguel”, dez linhas; “Cia. Auxiliar”, nove linhas; “Viação Itaquera”, duas linhas;  “Penha-São Miguel”, 328 ônibus ficaram encostados na garagem; Segundo o sr. Paulo Marinho, diretor da CMTC, a greve atingiu uma área de 360 quilômetros quadrados, onde vivem dois milhões de pessoas”.[55] Voz Operária prossegue na descrição detalhada da greve: “Na madrugada do dia 2, principalmente na Zona Leste de São Paulo, nos pontos de ônibus, as filas começaram a se formar ...  As filas começaram a crescer as quatro e meia da manhã nas ruas de São Miguel Paulista, Itaquera, Guaianazes e outros 20 bairros da Zona Leste, onde cerca de um milhão de pessoas usa diariamente o sistema de ônibus. No final da tarde, no Parque D. Pedro, onde se localiza o ponto final da maioria dos ônibus da Zona Leste, a cavalaria da Polícia Militar ocupou militarmente o local, a fim de impedir protestos populares”.[56]

Um dos aspectos importantes desse movimento grevista foi o fato de que a greve interferiu no processo de trabalho de várias empresas da capital, na interrupção das aulas em colégios e Faculdades e, especialmente, teve o apoio da população que, mesmo sendo privada do transporte para ir ao trabalho ou às aulas, compreendeu as razões dos trabalhadores e de suas reivindicações, conforme relata Voz Operária: “Dezenas de viaturas policiais foram mobilizadas para impedir o protesto dos passageiros. Pelos cálculos da CMTC só na Zona Leste deixaram de circular 1.282 ônibus. Milhares de operários não puderam ir ao trabalho ou chegaram com horas de atraso. Segundo um assessor da Federação das Indústrias (de São Paulo, EC) o movimento grevista representou uma queda razoável na produtividade de centenas de empresas. Milhares de estudantes também não puderam ir às aulas. Fato muito significativa foi a reação da população: poucas pessoas ficaram contra os motoristas e cobradores, porque a grande maioria reconheceu que era justo, pois sabem que os rodoviários ganham muito pouco, trabalham várias horas extras por dia em condições duras”.[57]

Diante da greve e da disposição dos trabalhadores de enfrentar os patrões e a política de arrocho salarial, a ditadura procurou de todas as formas desarticular o movimento, mediante a censura aos jornais, que foram proibidos de noticiar a greve, a polícia política foi à casa daqueles que considerava líderes da greve e prendeu dezenas de motoristas. Diz  Voz Operária: “Os jornais foram proibidos de dar uma notícia verdadeira sobre o que houve. As televisões receberam ordem de censura para nada dizerem. Mas a BBC de Londres, no mesmo dia, deu uma informação sobre o movimento grevista ... As autoridades tudo fizeram para impedir o movimento. Desde a noite anterior, agentes do DOPS procuraram os motoristas e cobradores em casa a fim de ameaçá-los e levá-los para o trabalho. Todos os motoristas da polícia e da Prefeitura foram mobilizados para conduzir os ônibus. Mas em muitos casos se perderam nas ruas, pois a maioria não conhecia os itinerários dos ônibus. A polícia também prendeu dezenas de motoristas que consideravam os cabeças da greve”.[58] Mesmo com toda repressão, essa greve histórica e relativamente anônima para as novas gerações e pelos livros oficiais de história, demonstrou que mesmo nas mais dramáticas condições os trabalhadores têm capacidade de resistir e lutar por seus interesses.

É muito controverso especular sobre conjunturas que poderiam ter acontecido. Os fatos da vida são reais e concretos e, por isso mesmo, qualquer avaliação baseada naquilo que poderia ter acontecido, é mesmo mera especulação. Mas não se pode também deixar de avaliar elementos da realidade que ocorreram na mesma conjuntura real e que contribuíram para que determinadas forças políticas e sociais não pudessem ter tido oportunidade de realizar todo o ciclo de atuação política. Trata-se de uma intervenção brutal de um inimigo muito mais poderoso no processo conjuntural, no caso específico, a ofensiva da ditadura para destruir o PCB, e não um resultado do curso natural dos acontecimentos. Com certeza a ditadura sabia perfeitamente quem era seu inimigo estratégico e, por isso, buscou cortar pela raiz um trabalho de base que vinha sendo construído com paciência e heroísmo por dedicados militantes comunistas. Eles não queriam a emergência de um PCB enraizado na classe operária no processo da chamada abertura lenta, segura e gradual.

Os vários documentos da inteligência militar que chegaram ao conhecimento público indicam que ocorreu uma operação de Estado-Maior da ditadura, numa cadeia hierárquica que envolvia desde o presidente da República, os principais chefes militares e da inteligência, até os esbirros que comandavam e praticavam a violência e os assassinatos nas salas de tortura, com o objetivo de liquidar o PCB. Eles tinham pavor da emergência de um PCB enraizado na classe operária no processo da chamada abertura lenta, segura e gradual. Nessa ofensiva, a ditadura matou na tortura os principais dirigentes do Comitê Central, vários dirigentes estaduais e prendeu praticamente toda a militância do Partido no Brasil. São raros os militantes comunistas daquele período que não foram presos. Essa operação desarticulou o PCB por alguns anos, uma vez que seus dirigentes estavam mortos, presos ou no exílio quando começaram as movimentações operárias no ABC no início da segunda metade da década de 70.

Essa conjuntura, aliada aos erros do Comitê Central que voltou do exílio, abriu espaço para outras forças políticas emergissem na conjuntura quando os comunistas ainda estavam desarticulados e curando as feridas provocadas pela  repressão. Possivelmente a história do movimento operário na região do ABC e no Brasil teria sido outra se a ditadura não tivesse destruído o trabalho dos comunistas entre o proletariado brasileiro. Mas experiência realizada no ABC, que a história ainda não tinha contado, pode ser considerada uma das mais heroicas e belas páginas da resistência dos comunistas e da classe operária à ditadura brasileira.

 

*Edmilson Costa é doutor em economia pela Unicamp e secretário geral do PCB.

 


[1] Entre 1974 e 1975 a ditadura organizou uma ofensiva para liquidar com o PCB, naquele período a única organização com influência na classe operária e nos movimentos de juventude. A ditadura avaliou que não era possível a abertura lenta, gradual e segura com a emergência dos comunistas com influência no movimento de massas. Por isso, eles organizaram a Operação Radar através da qual assassinaram na tortura um terço do Comitê central, o presidente da Juventude Comunista, dois dirigentes do Comitê Militar na PM de São Paulo (Um coronel e um tenente), vários dirigentes regionais e operários e prenderam praticamente toda a militância nacional do Partido. Vários documentos confirmam que os assassinatos foram autorizados pela mais alta cúpula do regime.

[2] Entre 1964 e 1979 ocorreram 1.204 intervenções nos sindicatos, das quais 810 só entre 1965-1965, realizou-se 78 destituições de membros de diretorias sindicais, interferência em 31 eleições sindicais, com anulação do pleito ou proibição de candidaturas e 354 dissoluções de entidades sindicais. Esses dados foram extraídos de Moreira Alves, M.H. Estado e Oposição no Brasil – 1964-1984 . Tabela 8.3, pag. 224. 

[3] Os comunistas e o golpe de 1964: declaração de maio de 1965 do PCB. Resolução Política do Comitê Central do PCB. Voz Operária, Suplemento Especial, Maio de 1965.

[4] Declaração de Maio. Op. cit.

[5] Oliveira, Carlos. Os trabalhadores e a luta contra a ditadura. Voz Operária, Maio, 1966. Toda a coleção da Voz Operária está à disposição no CEDEM-Unesp. Esses documentos foram retirados clandestinamente do Brasil e organizados no Arquivo do Movimento Operário de Milão, Itália, e após a queda da ditadura, transferidos para o Brasil.

[6] Voz Operária, op. cit.

[7] Voz operária, op. cit.

[8] Voz Operária, op. cit.

[9] Voz operária, novembro de 1966.

[10] Depoimento de Lúcio Bellentani. Revista Isto É, Dinheiro. Terceiro vídeo da série “A Volkswagen e os anos de chumbo”. Youtube. Acesso em 4 de setembro de 2020.

[11] Voz Operária. Novembro de 1967.

[12] Voz Operária, op. cit

[13] Voz Operária, op. cit.

[14] Resolução Política do VI Congresso do partido Comunista Brasileiro. Dezembro de 1976. Lisboa: Problemas políticos do movimento comunista e operário internacional, No. 6. Edições Avante, 1976.

[15] Resolução política do VI Congresso op. cit.

[16] Resolução política, op. cir.

[17] Resolução do VI Congresso, op. cit.

[18] Resoluções do VI Congresso, o. cit.

[19] Voz Operária, abril de 1968.

[20] Voz Operária, op. cit.

[21] Nesse artigo Meirelles informa indiretamente que foi o autor de um primeiro artigo com o mesmo título, que não foi assinado, e acrescenta que nesse segundo documento vai desdobrar os elementos que abordou no artigo anterior.

[22] Meirelles, Murilo W. Por que e como construir o Partido nas empresas. Voz Operária, julho, 1968.

[23] Meirelles, op. cit.

[24] Meirelles, op. cit.

 

[25] Meirelles, op. cit.

[26] Costa, E. A política salarial no Brasil. Apud Frederico, C., que se baseou em panfleto do jornal Luta Operária, No. 1.

[27] Frederico, op. cit.

[28] Voz Operária, janeiro de 1969.

[29] Voz Operária, fevereiro de 1969.

[30] Ativo é uma reunião do partido (pode ser nacional, estadual ou local) com o objetivo de ativar, estimular e organizar determinadas ações específicas do Partido. A Voz Operária, por motivos óbvios, só noticiou essa reunião vários meses depois, para evitar com a repressão pudesse monitorar as movimentações do partido. 

[31] Voz Operária, junho de 1969.

[32] Voz Operária, op. cit.

[33] Esse documento não foi publicado pela Voz Operária, por motivos óbvios, afinal os dirigentes da época com certeza sabiam que um plano dessa ordem não poderia ser divulgado publicamente porque a repressão passaria a intensificar a perseguição do Partido nos grandes estabelecimentos. Mas o documento foi encontrado no DOPS pelo pesquisador Ricardo Rodrigues A. de Lima, que o transcreveu a partir de microfilmes para sua pesquisa de doutorado.

[34] Plano de Construção e consolidação do Partido nas Grandes Empresas, fevereiro de 1970.

[35] Placconpe, op. cit.

[36] Placconpe, op cit.

[37] Placconpe, op. cit

[38] Placonnpe, op cit.

 

[39] Placconpe, op. cit.

[40] Placconpe, op. cit.

[41] Armando Mazzo foi líder sindical marceneiro e militante do PCB eleito deputado estadual em 1947, mas seu mandato foi cassado, quando o PCB foi posto na ilegalidade no mesmo ano. Logo depois, Mazzo se candidatou a prefeito de Santo André pela legenda do PST e foi eleito, mas novamente a Justiça Eleitoral cassou seu mandato no dia da posse. Em 1989, o prefeito de Santo André, Celso Daniel, do Partido dos Trabalhadores, realizou uma cerimônia de posse com a presença de Mazzo, resgatando simbolicamente seu mandato. Mazzo faleceu aos 77 anos em São Paulo.

[42] Depoimento filmado de Bellentani a um grupo de militantes do PCB (entre os quais o autor), que estão recolhendo depoimentos de velhos militantes, como contribuição para a história oral da resistência operária em São Paulo e para a própria história das lutas da militância operária e popular do PCB.

[43] Depoimento, op. cit.

[44] Voz Operária, julho de 1970.

[45] Depoimento de Bellentani, op. cit.

[46] Depoimento de Bellentani, op. cit.

[47] Depoimento de Bellentani, op. cit.

[48] Bellentani, op. cit

[49] Bellentani, op. cit.

[50] Bellentani, op. cit.

[51] Bellentani, op. cit.

[52] Voz Operária, fevereiro de 1971

[53] Bellentani, op. cit.

[54] Bellentani, op. cit.

[55] Voz Operária, junho de 1974.

[56] Voz Operária, op. cit.

[57] Voz Operária, op. cit.

[58] Voz Operária, op. cit.

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